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Violência escolar: um problema de todos - Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams

Por Elisa Oswaldo Cruz Marinho e

publicada na Revista Em Formação – Volume 4, 2012




A psicóloga Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams coordena o Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (Laprev) da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), no interior de São Paulo. Vinculado ao departamento de Psicologia, o Laprev trabalha com a violência intra-familiar e com a violência escolar buscando, sempre que possível, associar esses dois fenômenos. “Entre alunos vítimas de bullying na escola, por exemplo, apenas 15% não sofriam violência em casa. E a violência familiar inclui a negligência”, afirma a pesquisadora.

A equipe coordenada por Lúcia faz intervenções na comunidade e oferece psicoterapia para mulheres, crianças e homens, tanto para os que sofrem como para os que praticam violência. “Muitos indivíduos violentos não tem nenhum ressentimento ou arrependimento pelo que fazem. Mas há outros que padecem por sua falta de controle, sofrem muito quando a raiva passa e eles se deparam com os resultados dos seus atos.”


Caracterizando a violência

Lúcia considera que a violência na escola costuma ocorrer entre alunos, entre alunos e funcionários ou entre pais de alunos e funcionários, em diferentes combinações. Pode ocorrer na própria escola, como na maioria dos casos, mas também nas redondezas da escola ou em festas escolares. As modalidades consideradas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) incluem a violência física, a violência relacional ou psicológica, a violência sexual e a destruição de material. “Essa é a proposta do nosso laboratório para definir violência escolar. Consideramos também a violência explicita e a violência simbólica, na qual se pode incluir a própria desigualdade social.”

A psicóloga explica que é importante considerar as pessoas envolvidas e os papéis assumidos por cada um. “O aluno, por exemplo, pode ser vítima, autor, testemunha ou uma combinação desses papéis”. O ato violento pode ser direto ou não direto, como quando alguém convida todos os alunos de uma turma para festa, menos um, que é excluído. “E também precisamos avaliar o grau dessa violência. Ela pode ser considerada um delito descrito no Código Penal ou pode ser um comportamento muito sutil como, por exemplo, quando um professor cumprimenta um aluno e ele vira a cara. Poderíamos considerar esse um caso de violência? Depende das normas culturais”, esclarece a psicóloga.

Mas o que suas pesquisas mostram é que essas pequenas transgressões morais do contato social têm tudo a ver com o surgimento da violência. “Então precisamos trabalhar comportamento moral na sala de aula desde cedo, para evitarmos mais à frente as grandes transgressões”.

Bullying e cyberbullying

A pesquisadora se deteve no tipo de violência escolar mais recorrente, o chamado bullying e/ou o cyber bullying. Este tipo de violência ocorre entre pares – aluno e aluno, professor e professor -, mas sendo o agressor geralmente mais forte e mais poderoso que a vítima. “Os comportamentos agressivos são cometidos intencionalmente, repetitivamente, ao longo do tempo. O poder é usado com o intuito de controlar”, explica Lúcia.

As categorias são muitas: o bullying pode ser físico, verbal, relacional; pode envolver a exclusão da vítima de atividades, a propagação de boatos e mentiras sobre a vítima, inclusive por meio eletrônico, através de celulares e internet, o chamado cyber bullying. “É muito difícil precisar a frequência ou a prevalência dos atos de bullying, porque não há uma unanimidade quanto à definição do fenômeno. Há métodos diferentes na coleta de dados que, às vezes, não envolvem todas as categorias”, ressalta a psicóloga.

Apesar das diferenças nas pesquisas, os índices mundiais sobre bullying são muito altos. Um estudo envolvendo mais de 200 mil estudantes de 40 países1 Mostrou que nos Estados Unidos 9% dos adolescentes já estiveram envolvidos com bullying na escola. Na Espanha, o índice chega a 17%.

O Brasil não é um desses países envolvidos no estudo, mas um estudo de Fernanda Pinheiro, mestranda orientada por Lúcia Williams, evidenciou a violência em nossas escolas. O estudo relacionou o bullying ocorrido na escola com a violência em casa. “Apenas 15 % dos alunos vítimas de bullying não sofria violência dos pais. Nossas famílias são violentas”. Os dados mostraram que o aluno que sofria agressão física da mãe tinha três vezes mais chance de ser vítima ou autor de bullying; quando a violência partia do pai, a criança tinha quatro vezes mais chance de estar num desses papéis. “E 55% desses alunos assistiu a pelo menos um ato de violência física ou psicológica entre os próprios pais”, contou Lúcia.


Os papéis no bullying

Lúcia categoriza os papéis dos indivíduos envolvidos em situações de bullying. Há o autor agressor, que é o líder e assedia sistematicamente a vítima. Os seguidores do agressor podem ser do tipo assistente, que ajuda o agressor, ou do tipo reforçador, que aplaude incentivando a prática. “Há também o papel do espectador, divido entre aqueles que fazem parte do problema, incentivando ou omitindo o fato, e os que tentam buscar uma solução, procurando um adulto para resolver o caso”, informa a psicóloga.


O agressor

Geralmente ele tem maior força física que a vitima, um comportamento evidentemente agressivo, necessidade de dominar o colega, pouca empatia pela dor do outro e baixa tolerância à frustração. Costuma desafiar a autoridade e tem um poder de influência sobre o grupo muito forte. Também se caracteriza pelo baixo rendimento escolar, problemas de comportamento, abuso de substâncias tóxicas e comportamento antissocial.


Lúcia conta que os casos graves, como o dos atiradores da escola em Columbine, nos EUA, em 1989, geralmente têm um histórico de bullying no papel de vítimas-autores. “Começam como vítimas e depois se tornam autores, com um prognóstico mental bastante complicado”. O curioso nesses casos, segundo Lúcia, que eles geralmente não foram vitimas de espancamento por parte dos pais. “Eles costumam ser vítimas de negligência familiar, tinham uma vida secreta que os pais desconheciam, pois não verificavam os sites que os filhos frequentavam na internet, não conversavam.”


A vítima

O bullying geralmente é praticado contra crianças passivas, ansiosas, mais quietas que as outras crianças, submissas. “Ou são também provocativas, irritadiças e tendem a se vingar”, explica Lúcia. Em geral, são indivíduos com baixo status no grupo. Muitos são rejeitados e até mesmo isolados do convívio grupal. A vitimização por bullying se dá geralmente através de ofensas e deboches relativos a aspectos físicos da vítima – uso de óculos, obesidade, trejeitos homossexuais ou por racismo.

Há diferença em relação a gênero. Lúcia afirma que indivíduos do sexo masculino sofrem e aplicam muito mais bullying do que os do sexo feminino. “E o tipo de assédio parece ser diferente entre homens e mulheres. As garotas praticam mais a exclusão, divulgação de rumores e o bullying verbal; já os garotos tendem mais para o bullying físico”, conta a pesquisadora.


Fatores de risco

A pesquisadora observa que já existe muita literatura mostrando que são as famílias que modelam o comportamento agressivo. Além da violência contra a criança, a violência entre os responsáveis e a falta de monitoramento dos filhos, já citados, outros fatores também são considerados de risco para o envolvimento da criança em situações de bullying. “A baixa coesão familiar e a super proteção, por exemplo”, cita Lúcia.

A postura da escola pode ser também, segundo a psicóloga, um grande problema. “Se a escola não faz nada, ela não faz assume seu papel de proteger aquela criança. Isso torna o ambiente muito fértil para o bullying proliferar. A especialista aponta outros fatores socioculturais envolvidos no problema. “O próprio papel da mídia ao impor um padrão de beleza inatingível está, de certa forma, favorecendo o assédio em função do aspecto físico do adolescente”, constata.


As consequências do bullying

A literatura, segundo Lúcia, indica alguns efeitos do bullying em termos imediatos e de longo prazo. Entre eles estão a ineficácia social, a dificuldade de relacionamento interpessoal, o comportamento agressivo e até homicídio. “É frequente o envolvimento dos indivíduos com atividades ilícitas, como portar armas e usar drogas, assim como o empobrecimento do desempenho acadêmico, até o abandono de escola”, aponta. A pesquisadora também identifica problemas psicológicos diversos, como rebaixamento da autoestima, dificuldades emocionais, medo, ansiedade, solidão, ideias suicidas e até tentativas de suicídio. “Existem livros escritos por pais de crianças que foram vitimas de bullying nos EUA e depois vieram a se suicidar. Nos livros, os pais analisam essa trajetória.”

Os efeitos do bullying se manifestam tanto na saúde física – na forma de alterações do sono, dor de cabeça ou dor de estômago - como na saúde mental do indivíduo, sendo a depressão o sintoma mais frequente, tanto entre vítimas como entre autores de bullying. “Quanto mais tempo o indivíduo for exposto ao bullying, maior o risco de apresentar depressão”. Lúcia explica que traumas na infância, como estresses severos em idades iniciais, podem predispor o indivíduo a ter transtornos mentais. “E o fato de ser submetido ao bullying traz à tona essa vulnerabilidade.”

O principal transtorno psiquiátrico envolvendo a violência é o transtorno de estresse pós-traumático, que um quadro de ansiedade caracterizado por uma excitação muito grande do sistema nervoso. Isso faz com que o indivíduo fique relembrando a situação traumática, embora não queira. Ele passa então a evitar ao máximo as situações que o lembrem do trauma. “E se o trauma ocorreu na escola, ele passa a evitar a escola.”

Ambientes traumáticos na infância são fatores de risco para o desenvolvimento de diversas síndromes na idade adulta. Lúcia lembra de quando a equipe do Laprev teve um artigo sobre bullying publicado, que repercutiu muito na mídia e que, por conta disso, foram procurados por um rapaz no laboratório que disse querer contar a sua história. “A história dele incluía uma vitimização por bullying por ser homossexual e ao relatá-la ele teve tremores e outros sintomas de estresse pós-traumático, ali na nossa frente”. O rapaz está em terapia, mas Lúcia ficou impressionada com o impacto de uma simples menção ao assunto. “Ele deixou de estudar e conta que quando pensa em escola relembra todo o sofrimento.”


O que pode ser feito em relação ao bullying?

Primeiro a escola precisa entender que existe o fenômeno e aceitar que ele é grave: viola o direito das pessoas e causa impacto na sua saúde. Por isso, não basta trabalhar só com os alunos. É preciso um envolvimento de toda a comunidade - os professores, a merendeira, o porteiro da escola. “Temos que envolver os pais, eles precisam entender qual a parte que lhes cabe. É necessário também que haja políticas escolares sólidas, com valores e regras definidas, que cubram as situações de assédio e agressão. Isso tem que ser assunto de sala de aula, tem que ser parte do currículo.”

Lúcia reforça sua posição de que é preciso trabalhar comportamento moral na escola. “Há uma pesquisadora brasileira que faz isso muito bem, A Dra. Paula Gomide”. Ela é professora titular da Faculdade Evangélica do Paraná e professora adjunto da Universidade Tuiuti do Paraná. “Seu trabalho envolve a conscientização de todos os alunos de que há formas pacíficas para a resolução dos problemas, que jamais se deve utilizar a violência. Todos têm que trabalhar juntos para criar um clima escolar positivo que seja seguro, que faça bem para a saúde e que seja incompatível com o bullying.”


Estatísticas da violência escolar no Brasil

Para avaliar essa questão, foi realizada em 2002 pelas pesquisadoras Miriam Abramovay e Maria das Graças Rua, com apoio da UNESCO, uma pesquisa em 14 capitais brasileiras, com 33.655 alunos, 3.099 professores e 10.255 pais, que responderam a um questionário a respeito de violência escolar. Mais 2.155 pessoas – entre diretores e coordenadores de ensino, policiais, agentes de segurança, inspetores - deram entrevistas individuais e/ou participaram de grupos focais.

Os relatos de situações de ameaça a alunos, pais e funcionários foram identificados com maior frequência em São Paulo e Brasília, onde se concentram 40% dos casos. A menor frequência foi encontrada em Belém do Pará. A violência psicológica prevalece em relação à violência física – apenas 20% dos entrevistados relataram agressões ou espancamento nas escolas. Um aspecto que Lúcia considerou curioso diz respeito à reação dos colegas ao presenciar um ato de violência. “A primeira reação, segundo a pesquisa com os próprios alunos, é incentivar. Em seguida, tentar separar. A última reação é chamar as autoridades escolares. Já os professores responderam de forma diferente: disseram que são logo chamados”. Ou seja, olhares diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Outro item avaliado na pesquisa é a incidência de roubos e furtos de objetos pessoais, com 38% dos casos relatados ocorrendo em Porto Alegre e Florianópolis e os professores reconhecendo o fato mais do que os alunos. Essa discrepância de opiniões também aparece com relação à depredação de patrimônio: de 7 a 26 % dos alunos reportaram esse tipo de ocorrência, enquanto que entre os professores a questão surgiu entre 31 a 61% dos participantes da pesquisa.

A questão socioeconômica interfere pouco nos índices de ocorrência de bullying. De acordo com pesquisa realizada em Curitiba, os resultados mostraram um índice de violência psicológica e física muito semelhante em escolas com públicos diferenciados. “A diferença só ficou evidente com relação à depredação de material, bem menor na escola de grau de risco intermediário”, apontou Lúcia.

A reação dos alunos à participação na pesquisa foi interessante: a maioria agradecia pela oportunidade e apenas um ou dois fizeram ameaças: “não mexe com quem tá quieto”. Segundo Lúcia, isso indica que os alunos querem tratar desse assunto, mas não têm espaço nem oportunidade. “A maior parte das escolas está despreparada para enfrentar o problema da violência e então o ignoram”, apontou a psicóloga.

Ela dá alguns exemplos de trabalhos eficientes. Citou o Projeto Escola que Protege, realizado no Rio Grande do Sul, mas fora de Porto Alegre, que começou trabalhando com os professores a violência sexual, mostrando a importância do seu papel ao cumprir a exigência de comunicar às autoridades esse tipo de ocorrência. Com o tempo, o projeto foi evoluindo e hoje aborda todo tipo de violência contra a criança, inclusive na escola, que é a maior queixa dos professores.

Lúcia referiu-se também ao seu laboratório, o Laprev. “No estado de São Paulo, estamos capacitando mais de 1.800 professores, inclusive na capital. O grande desafio é que temos que dar um curso de 80 horas com apenas 20 horas dedicadas à violência na escola, Dada a complexidade do tema, o ideal seria um curso voltado exclusivamente para isso. O governo de São Paulo está começando um projeto que trata só de violência na escola, mas ainda não há resultados disponíveis.”


¹Craig, W., Harel-Fisch, Y., Fogel-Grinvald, H., Dostaler, S., Hetland, J., Simons-Morton, B., Molcho, M., Mato, M. G., Overpeck, M., Due, P., & Picket, W. (2009). A cross-national profile

of bullying and victimization among adolescents in 40 countries. Internacional Journal of Public Health, 54 (suplemento 2), 216-224.


Quem é Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams

Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com mestrado pela Universidade de Manitoba (Canadá), doutorado em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP/SP) e pós-doutorado pela Universidade de Toronto (Canadá). Supervisiona alunos no Programa de Pós-Graduação em Psicologia e Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, ambos da UFSCar. É pesquisadora do CNPq (nível 1-D) e autora de diversos livros e artigos científicos, tendo recebido premiações nacionais e internacionais, inclusive da Organização Panamericana de Saúde, OPAS/OMS e da Women´s World Summit Foundation. É vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (2009-2011).


Elisa Oswaldo Cruz Marinho é mestre e doutoranda em Educação,Gestão e Difusão de Biociências pelo Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEGeD/IBqM/UFRJ). Especialista em Divulgação Científica pelo Laboratório de Jornalismo Científico da Universidade de Campinas (Labjor/Unicamp, 2007-2008). Tem interesse de pesquisa no estímulo aos jovens para as carreiras em ciência, no papel das Academias de Ciências do mundo em desenvolvimento nesse sentido e em estudar exemplos de países com grande crescimento recente em educação, ciência, tecnologia e inovação.Chefe da assessoria de Comunicação Social da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 2006, criou e desenvolveu na ABC o site ProfiCiência (www.proficiencia.org.br), com o apoio da Faperj (Editais de Popularização de Ciência, 2008 e 2010). Trabalhou com informação profissional na UniverCidade (2004-2006) e na Universidade Estácio de Sá (2002-2003). Gerenciou a elaboração do Oriente-se: Guia de Profissões e Mercado de Trabalho, publicado em 2000 com o apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Atuou durante 17 anos como arte-educadora desde a pré-escola até o ensino médio, em diversas escolas públicas (Secretaria Municipal de Educação, 1983-1994) e particulares (Colégio St. Patrick’s, Colégio Andrews, Colégio Cidade) do Rio de Janeiro.

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