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  • Laboratório Em Formação

O espírito interdisciplinar

Hilton Japiassu

e publicada na Revista Em Formação – Volume 1, 2006



Hilton Japiassu foi epistemólogo e professor de filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Foi o primeiro pesquisador brasileiro a escrever sobre interdisciplinaridade no livro Interdisciplinaridade e a patologia do saber, em 1976. Na época, o autor já apresentava os principais questionamentos a respeito da interdisciplinaridade e seus conceitos e fazia uma reflexão sobre a metodologia interdisciplinar, baseada em experiências realizadas naquele período. Faleceu em 2015.

Um dos grandes desafios lançados ao pensamento e à educação neste início de século e milênio é a contradição entre, de um lado, os problemas cada vez mais globais, interdependentes e planetários e, do outro, a persistência de um modo de conhecimento que ainda privilegia os saberes fragmentados, parcelados e compartimentados. De onde surge a necessidade e a urgência de promovermos o desenvolvimento no ensino e na pesquisa de um espírito propriamente transdisciplinar ou, pelo menos, de valorizarmos os conhecimentos interdisciplinares para uma reforma do pensamento e da educação. Creio que pode ser aplicado ao pensamento o que dizia Péguy sobre a poesia: “quando a poesia está em crise, a solução não consiste em decapitar os poetas, mas em renovar as fontes de inspiração”. Porque a reforma do pensamento, longe de constituir um luxo intelectual, responde a uma necessidade vital: constitui um dos componentes fundamentais para “salvarmos” a humanidade face às forças terríveis que ela mesma desencadeou sem criar as condições para controlá-las.


Hoje há um interesse crescente pela interdisciplinaridade. Motivado por diversas razões, entre as quais as que vinculam-se a uma análise pedagógica e à redefinição de uma política educacional. Paradoxalmente, nunca se recusou tanto e de boa fé as exigências interdisciplinares. O interdisciplinar possui um sentido bastante preciso: exprime tanto uma constatação (a fragmentação das disciplinas) e uma recusa (abandonar certa tradição ou mentalidade) quanto um remédio (formulação desejada de um mito unificador) para esse esfacelamento. Muita gente toma consciência de que os objetos de pesquisa revelam-se tão complexos que só podem ser tratados por uma abordagem interdisciplinar. Não basta mais o simples encontro ou justaposição das disciplinas. Torna-se imprescindível eliminar as fronteiras entre as problemáticas e os modos de expressão para que se instaure uma comunicação fecunda.


Lamentamos que em nosso atual sistema educacional seja praticamente inexistente a prática interdisciplinar. O que existe são encontros multidisciplinares: mais fruto da imaginação criadora e combinatória de alguns com conhecimento do manejo de conceitos e métodos diversos do que de algo propriamente instituído e institucionalizado.


O espírito interdisciplinar nos permite tomar consciência de que uma verdade acabada e dogmática impede o exercício cotidiano da liberdade de pensar. Um saber que não se questiona constitui um obstáculo ao avanço dos saberes. A pretensa maturidade intelectual, orgulho de tantos sistemas de ensino, constitui um obstáculo entre outros. A famosa cabeça bem-feita, bem arrumada, bem estruturada, bem organizada e objetiva, não passa de uma cabeça malfeita, fechada, produto de escola, modelagem e manipulação. Trata-se de uma cabeça que precisa urgentemente ser refeita. O espírito interdisciplinar ajuda a refazermos essas cabeças bem-feitas, quer dizer, malfeitas. Pois cultiva o desejo do enriquecimento por novos enfoques e o gosto pela combinação das perspectivas; ademais, alimenta a vontade de ultrapassar os caminhos batidos e os saberes adquiridos.


Não nascemos com cabeças “desocupadas”, mas inacabadas. A escola e a sociedade pretendem ocupá-las pela instrução e pela linguagem. Surge, então, a necessidade de psicanalisar os educadores a fim de que possam ser os agentes que despertem, provoquem, questionem e se questionem, e não se reduzam ao papel de disciplinadores intelectuais, capatazes da inteligência ou revendedores de um saber-mercadoria sem as técnicas do marketing. O professor que não cresce, não estuda, não se questiona e não pesquisa deveria ter a dignidade de aposentar-se, mesmo no início de carreira: já é portador de uma paralisia intelectual ou de uma esclerose precoce. Deveria também aposentar-se o que prefere as respostas às questões ou ensinar a pesquisar.


Se denominamos ciências engajadas as disciplinas visando à solução dos problemas concretos e de ciências disciplinares as que visam à solução dos problemas no contexto das disciplinas, veremos que somente as primeiras partem das questões postas na existência cotidiana. Por isso, realizam um trabalho propriamente interdisciplinar: é em torno delas que podemos construir uma espécie de “ilha de racionalidade”: uma representação teórica buscando seus elementos de saber em várias disciplinas. A aprendizagem da capacidade de empreender abordagens teóricas interdisciplinares desse tipo deve estar no centro da formação da juventude no espírito científico. Mais do que a mera transmissão do conteúdo das disciplinas. Porque promove sua formação cultural geral (sua Paidéia) levando os jovens a participar ativamente da cultura científica: a tornarem-se cientificamente alfabetizados.


Para que alguém se torne cientificamente alfabetizado, não basta possuir certos conhecimentos. É preciso que esses conhecimentos sejam compreendidos em ligação a outras noções indispensáveis à abordagem dos problemas concretos (assimilação!). Em outras palavras, deve ser alguém capaz de construir uma ilha de racionalidade, quer dizer, um modelo interdisciplinar suscetível de elucidar uma situação precisa: sabendo utilizar e fazer convergirem conhecimentos provenientes de várias disciplinas, terá condições de resolver certas questões e decidir como e quando consultar os experts sem tornar-se totalmente subordinados a eles.



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